Através do Caos. Capítulos I ao X

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    Kuroomemi
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    Através do Caos. Capítulos I ao X

    Mensagem  Kuroomemi em 27/11/2011, 11:17


    CAPITULOS 1 AO 10
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    CAPITULO I - Caminhantes


    Spoiler:

    Capítulo 1: Caminhantes:

    Era uma noite escura e sombria, era o oposto polar dessa mesma tarde. O chão estava húmido e o vento gelava os ossos de quem o ousasse desafiar. Vultos de escuridão passeavam por entres a casas dos cidadãos de Formagna.

    O jovem Purple Hoxhurg caminhava pela estrada central com o objectivo de chegar á casa do seu amigo, Blaster Salvitore, para jantar.

    -Está mesmo muito frio - Gaguejou a raposa que apertava o casaco contra o seu pêlo roxo - felizmente o Blaster têm aquecimento em casa.

    O barulho dos passos apressados de Purple era inaudível a quem passasse por ali, pois o vento abafava-o com as suas rajadas indomáveis.
    De repente a raposa caiu por terra, depois de ter tropeçado numa rocha.

    -Ouch! Estou com muito azar hoje…

    -Parece que precisas de uma mãozinha, Purple - Disse uma voz familiar, enquanto o erguia para cima.

    A mão que o erguia pertencia a um ouriço de pêlos prateados com listras azul-claro em cada um dos seus sete longos espinhos, que por sua vez, também envergava um pesado casaco.

    -Platinium! - Reconheceu Purple

    O ouriço sorriu e fitou o com os seus penetrantes olhos âmbar.

    -Também vais jantar á casa do Blaster, não é? - Perguntou o ouriço.

    -Yup, ele convidou-nos para celebrar a vitória no jogo de basquetebol - confirmou o outro.

    -Bom, agora que definimos objectivos que achas de nos fazermo-nos à estrada? - Inquiriu Platinium - Acho que congelei um espinho…

    O outro respondeu afirmativamente e eles partiram para a casa do seu amigo. Depois de um bocado chegaram finalmente ao seu destino.
    Platinium bateu á porta e uma voz feminina respondeu:

    -Quem é?

    -O Crash Bandicoot - Respondeu Platinium - Anda lá Sweet, abre a porta!

    A porta abriu-se e os dois caminhantes ficaram de boca aberta perante a visão...…

    CAPÍTULO II - Desespero

    Spoiler:

    Capítulo 2: Desespero

    Quando a porta se abriu a visão que apareceu aos dois viajantes era tudo menos agradável. A sua amiga Sweet the Bat, que tinha-lhes aberto a porta, estava num estado horrível, os seus braços estavam cheios de feridas e a sua roupa esfarrapada, mas para além disso via-se por trás dela que a sala estava com a mobília desorganizada e apenas a pálida luz da lua a iluminava.

    -Sweet! O que se passou aqui!? – Interrogou Platinium, desesperado.

    A morcega caiu nos braços deste e gaguejou apenas: “P…la...ti…nium” antes de desmaiar. Platinium tomou-a nos seus braços e entrou no pandemónio que estava a sala. Os corpos inconscientes dos seus amigos jaziam no chão.

    -Knix! Knix! – Berrou desesperadamente Purple enquanto tentava acordar o seu amigo.

    Para além do equidna, Trouble, Kimmy, Flail, Wild e Darth também se encontravam no chão de madeira da casa.
    Platinium sentiu um arrepio na espinha ao observar os corpos dos seus amigos e o ambiente em redor.
    A respiração dele começou a ficar mais pesada enquanto ele vasculhava no chão á procura de pistas sobre o que poderia ter causado a catástrofe.

    -Encontras-te algo? - Perguntou Purple com as lágrimas a escorrem pela sua face.

    -Infelizmente apenas pó, mas dá para ver sinais de luta… - Responde-lhe com uma voz monótona, não querendo assustar o amigo- Encontras-te o Blaster e o Shade?

    Purple abanou a cabeça em sinal de negação com uma expressão preocupada.
    De repente Platinium caiu no de joelhos ao sentir uma forte dor de cabeça.

    -Platinium! – Gritou Purple tentando levantá-lo.

    -Purple, senti uma presença muito forte – afirmou Platinium enquanto se erguia.

    -Uma presença?

    -Sim, alguém ou algo, não consigo definir o quê, mas tenho a certeza que não é natural…

    Platinium libertou-se de Purple e penetrou mais no interior da casa. O corredor que dava acesso ao quarto do seu amigo estava com um aspecto pavoroso, os quadros e fotografias estavam no chão com as suas molduras quebradas. Platinium agachou-se e sacudiu o pó que cobria os cacos duma fotografia. Ele reconheceu a fotografia como sendo a mesma foto de grupo que tinha pendurado por cima da lareira da sua casa. A foto, onde estava ele e todos os seus amigos, havia sido tirada durante um piquenique realizado á dois anos. O ouriço esboçou um sorriso fraco ao relembrar essa excursão. Contudo olhando para o que o rodeava e lembrando-se dos corpos dos seus amigos inconscientes na sala, sentiu uma sensação que nunca tinha experimentado antes: o terror. Contudo, o ouriço embrenhou-se mais no corredor que se estendia á sua frente, na esperança de encontrar os seus melhores amigos, Blaster e Shade.
    A presença que antes tinha detectado aumentava a sua força com cada pulsação do seu coração e com isso, o seu medo de encontrar os seus amigos mortos crescia e forma exorbitante. Dentro do quarto encontrou o mesmo estado de desordem e caos que governavam com punho de ferro o resto do edifício.

    -Nenhum sinal deles, isto está cada vez pior… - Confessou o ouriço a si mesmo – Vou ajudar o Purple a transportar os outros para o hospital.

    Ao virar as costas ao quarto e a dirigir-se para a porta, Platinium sentiu uma dor agonizante na sua cabeça, e soltou um forte brado:

    -Quem és tu?!

    Uma voz fria e ríspida na sua mente respondeu-lhe:

    -Eu sou a tua sombra, a tua e a de tudo quanto respira, eu sou o Vida e a Morte, eu sou o que mais temes, eu sou a escuridão…

    Ouvindo tais palavras Platinium cedeu ás dores e desmaiou, caindo no chão frio.

    CAPÍTULO III - Acordar

    Spoiler:

    Blaster abriu os olhos.

    Encontrava-se deitado de costas numa cama dura, e sobre si, via um tecto de madeira antigo, ele calculou que já lá devia estar há muito tempo.
    O ouriço tentou erguer-se, e imediatamente sentiu uma dor agonizante nas costas e voltou a cair.

    Doía-lhe o corpo todo, mas ainda assim fez novo esforço para se levantar, e conseguiu-se erguer, sentando-se na borda da cama.
    Olhou em volta, e viu que tal como o tecto a casa também tinha um aspecto velho e desgastado.
    As paredes eram formadas por rochas amontoadas com cimento entre elas, o piso era também feito de madeira.

    A casa, ou cabana mais propriamente, não era particularmente decorada, apenas uma mesa de madeira no centro com algum pão e queijo em cima dela, um grande armário, uma arca, que Blaster calculou servir para guardar comida e existia também um espelho preso na parede ao lado da cama.

    O ouriço levantou-se, apesar dos protestos incessantes do seu corpo, e olhou-se ao espelho.

    A imagem que olhava para ele do outro lado era um jovem ouriço de pêlo azul listrado de verde no topo de cada um dos seus seis espinhos, alto e magro, com ar de quem não come à dias, várias ligaduras cobriam-lhe várias partes do corpo.
    O seus olhos eram de um verde vivo e uma franja de cabelo verde que caía do espinho principal quase que lhes tocava.
    Tinha somente 19 anos, mas o olhar cansado e de sofrimento que tinha na cara faziam-no parecer muito mais velho.

    Vestia apenas um par de calças com marcas de queimaduras, rasgões e sangue seco e calçava uns ténis brancos, com detalhas azuis, sujos.
    Na sua face, a sua boca encontrava-se rodeada por uma barba ténue de um preto azulado, de como quem não faz a barba há alguns dias.

    “Há quanto tempo estou aqui? O que se passou comigo? Onde estou? “ Pensou o ouriço enquanto fitava a sua própria reflexão no espelho embaciado.

    Questionando-se seguiu para a mesa e viu que o pão com queijo que lá se encontrava estava sob uma folha de papel.

    Blaster depressa pegou na folha e verificou que lá estava escrita uma nota para ele:

    Caro amigo,
    Fui à aldeia, se acordar antes de eu regressar peço-lhe que coma o pão que eu lhe deixei, tem roupas limpas no roupeiro, sirva-se, e espere até eu regressar.
    Gale.


    O Ouriço ficou a olhar para a carta enquanto comia o pão com voracidade.
    Estava cheio de fome, já não devia ter comido à dias, mas o que o intrigava mais era quem seria “Gale”, e como ele ou ela o tinham levado para ali e porque.

    “A caligrafia é delicada, deve ser uma mulher, além disso usa muitos pronomes, uma característica tipicamente feminina” ponderou Blaster, enquanto olhava em volta “Esta casa parece ser muito velha, portanto não deve ser uma mulher já velha”.

    Decidido a aguardar, Blaster vestiu as roupas que esta lhe indicou, uns jeans, e uma simples camisola de capuz de cor azul clara.

    “Ou ela sabia que eu vinha parar aqui e comprou as roupas previamente, ou então comprou algumas que lhe pareciam que me serviam, de qualquer das formas, estou-lhe agradecido” Reflectiu novamente o ouriço antes de se deitar novamente na cama a olhar para o tecto, a cena iluminada pela luz do Sol que passava pelos buracos na construção que serviam de janela, e que substituíam a candeia pendurada no tecto sobre a mesa, durante o dia.
    Passaram-se duas horas, e Blaster acabou por adormecer novamente.

    Ele acordou novamente quando a candeia já estava acesa, e balouçava no tecto, enquanto o vento passava pelas janelas, contudo desta vez a primeira coisa que ele viu não foi o tecto, mas sim um rosto jovem que lhe sorria.

    Blaster sentou-se imediatamente, e a estranha fez o mesmo do lado oposto da cama

    -Oh! Ainda bem que acordas-te! Tenho cuidado de ti desde à três dias atrás, o meu nome é Gale – Disse a rapariga.

    Blaster olhou bem para a ouriça que por sua vez o fitava, sentada na outra beira da cama:

    Era jovem deveria ter a mesma idade de Blaster (18, 19 anos talvez), tinha o pelo rosa claro, quase branco, que lhe cobria os dois longos espinhos que lhe caíam até ás costas, tinha olhos azuis curiosos que olhavam directamente para os seus e dava a ideia de ser alguns centímetros mais baixa que ele.

    Tinha um aspecto saudável, e o seu corpo encontrava-se coberto por um casaco branco largo, que envergava sobre uma camisola negra e uns jeans, sem dúvida uma visão que surpreendeu Blaster, não só era imensamente mais jovem do que ele imaginava, mas também era incrivelmente bela, o que o deixou-o envergonhado.

    Gale notou o olhar curioso do ouriço que a olhava de cima a baixo, e soltou uma leve gargalhada na sua voz clara:

    -Imagino que esperasses alguém mais velho? – Ela aproximou-se dele, olhando-o com interesse, deixando-o ainda mais nervoso.

    -Sim, estava à espera… - Respondeu, ele tentando soar o mais calmo possível. – Pelo aspecto da casa, supôs que sim.

    Gale sorriu.

    -Este Cabana estava abandonada e fica justamente ao lado da minha casa, que creio, acharás mais agradável – Ela fez uma pausa antes de lhe perguntar - Como te chamas?

    -Blaster - Respondeu-lhe sorrindo.

    Ela olhou-o com curiosidade e depois levantou-se, e atirou-lhe um casaco pesado negro e um cachecol listrado de azul escuro e branco.

    -Está frio - Disse ela abotoando o seu casaco e colocando ela própria um cachecol à volta do pescoço - Veste-te e despacha-te, podes descansar e comer algo, quando estiveres em minha casa.

    E dito isto ele levantou-se e vestiu-se seguindo a jovem para fora da cabana.

    CAPÍTULO IV - Noite Branca

    Spoiler:

    Capítulo 4 - Noite Branca

    Mal saiu da cabana, Blaster sentiu logo o seu corpo a perder o calor quase instantaneamente.

    A roupa que usava era quente, mas ainda assim o vento gélido parecia congelar-lhe os próprios ossos, e a neve cobria-lhe as pernas até ao joelho, e ameaçava cobri-lo por completo se ele ficasse naquele sítio por muito mais tempo.

    Gale agarrou-lhe o braço e puxou-o pelo meio da neve:

    -Pensei que fosses mais resistente – Disse ela num tom um tanto quanto irónico.

    Blaster ignorou o comentário e tentou apertar o casaco à sua volta o mais possível seguindo-a cautelosamente pela espessa camada branca.

    O chão era invisível, mas Blaster sentiu um solo rochoso debaixo dos seus pés, quanto ao que se encontrava à sua volta, o ouriço não fazia a mínima ideia, além da cabana atrás de si e da sua companheira de viagem à sua frente, tal era a dificuldade de ver através da neve que caía intensamente.

    O par viajou lenta, mas decididamente, cada vez mais afundando-se na neve, ora descendo, ora subindo.

    Ao final de alguns minutos, os ouriços avistaram uma casa de madeira com um aspecto requintado, com um sinal que pendia dela indicando que se tratava de uma estalagem.

    -Podemos parar um pouco? – Questionou Blaster.

    Gale não o pareceu ouvir com o barulho do vento, por isso ele agarrou-lhe o braço:

    -Podemos descansar um pouco naquela estalagem? – Questionou ele tentando falar o mais alto e claramente possível.

    Gale pareceu perceber, pois de seguida apontou para a estalagem com ar interrogativo, Blaster acenou afirmativamente com a cabeça, e ela fez o mesmo.

    Ambos se dirigiram para a casa e Blaster bateu à porta, que lhe foi aberta por um Equidna castanho mais alto do que ele, e convêm realçar que Blaster era considerado alto, com um aspecto forte acentuado por uma grande barba. Vestia-se com roupas quentes, e envergava um avental, devia ser o estalajadeiro:

    -O que desejam? – Disse ele deixando os ouriços entrar na sua estalagem – Eu sou Alvere, o dono d’ “O Sortudo”.

    -O meu nome é Blaster Salvitore, e esta é a Gale – Disse o ouriço azul e verde – Gostávamos de comer qualquer coisa, e escondermo-nos do frio.

    Alvere sorriu e mostrou um ar de triunfo, o frio podia ser incomodativo, mas se lhe trazia clientela, o Inverno podia ser permanente:

    -Muito bem, sigam-me.

    Mestre Alvere conduziu os dois ouriços a uma grande sala comum, apinhada de gente que se resguardava do frio glacial que se fazia sentir no exterior do estabelecimento, consumindo abundantemente todo o tipo de bebidas.

    O Equidna apontou-lhes uma mesa pequena e redondo com duas cadeiras a um canto, e eles sentaram-se lá.

    -Muito bem amigos, que desejam? – Questionou o estalajadeiro
    .
    -Algo quente, algum pão e um pouco de vinho – Apressou-se Gale a dizer, entregando-lhe algumas moedas.

    -Como queira Senhora – E dito isto entrou dentro da cozinha
    .
    Os ouriços ficaram um pouco em silêncio, olhando o ambiente de festa à sua volta, todos pareciam alegres e dançavam felizes.

    -Como me encontrastes? – Perguntou repentinamente Blaster.

    -O quê? – Perguntou por sua vez Gale que se encontrava emersa em pensamentos.

    -Como me encontraste? – Repetiu Blaster.

    -Oh! – Fez ela em sinal de compreensão – Bom, um dia estava a dar uma volta perto da Floresta e encontrei-te deitado inconsciente, estavas cheio de feridas e parecias muito fraco – Gale fez uma pausa a ausência de expressão na cara do seu novo amigo – Eu vi aquela cabana, e levei-te para lá, fiquei a cuidar de ti durante 3 dias.

    Blaster não reagiu imediatamente, tinha estado a escutar atentamente Gale, meditando em cada uma das suas palavras, mas paralelamente, fitava uma figura encapuçada que se sentava no canto oposto da sala, que sorria para eles.

    -Blaster? – Chamou Gale, tentando encontrar o seu olhar.

    -Sim?

    -Tu estás bem?

    De repente, Mestre Alvere chegou pousando um tabuleiro com comida quente e uma garrafa de vinho que se apressou a abrir.

    -Querem mais alguma coisa? – Questionou ele.

    Gale preparava-se para dizer que não, mas Blaster falou:

    -Mestre Alvere, pode me dizer quem é aquele sujeito? –Disse apontando para a figura que se sentava no canto oposto da sala.

    Alvere olhou para onde apontava e abriu a boca ao ver quem Blaster indicava, antes de se virar rapidamente e lhe dizer num sussurro:

    -É um Manto Negro, é tudo o que precisas de saber, não o incomodes que ele não te incomoda a ti – Blaster abriu a boca para contestar, mas Alvere depressa lhe indicou para se calar e saiu para a cozinha.

    CAPÍTULO V - O Manto Negro

    Spoiler:

    Capitulo 5 – O Manto Negro

    A forma ríspida como Alvere havia informado Blaster, havia deixado o ouriço intrigado, e Gale temerosa.

    -O que é um Manto Negro? – Quis saber ele, esperando a resposta de Gale.

    A sua amiga não lhe respondeu, abanando a cabeça dando a entender que não lhe iria responder, e antes que Blaster pudesse voltar a tentar, já ela começara a comer, não lhe dando possibilidade de a questionar.

    Blaster pegou num pão, e com os dentes arrancou um pedaço e comeu-o, e levantou-se imediatamente, afastando-se da mesa, mas Gale levantou-se também e agarrou-o pelo braço:

    -Onde é que tu vais?

    -Vou descobrir quem é esse tal “Manto Negro” – Disse Blaster puxando o seu braço para fora do alcance de Gale.

    -Não vás! Vais te meter em problemas Blaster! – Ela falou mais alto, mas ninguém pareceu ouvi-la tal era o barulho da música e da festa que se fazia ouvir na cabana.

    Blaster virou-se e olhou para ela, ela estava quase a chorar.

    -Está bem, mas explica-me quem é ele.

    -Não posso…

    -Então esquece!

    Dito isto, o ouriço ignorou os pedidos dela, e seguiu pelo meio da multidão dançante, afastando-os calmamente e ficando em pé, de frente para a figura encapuçada.

    O Manto Negro, parecia ser um ouriço como ele, com uma barba branca rala, e que fumava um cachimbo de madeira altamente trabalhado, por baixo da aba do seu capuz olhava Blaster com uns olhos cinzentos penetrantes, que fariam qualquer um recuar, e que fizeram Blaster sentir frio novamente, apesar do calor que se fazia sentir na estalagem.

    -Boa-noite, Senhor Salvitore – Disse o Manto Negro numa voz profunda e que emanava poder.

    Blaster olhou para ele com uma cara de espanto, ele havia dito o seu nome em voz baixa, e ainda no exterior, era impossível qualquer pessoa tê-lo ouvido, mas aquela figura sabia-o.

    -Surpreende-lhe o facto de eu saber o seu nome? – O homem riu-se, e descontraiu-se na cadeira, soltando uma grande baforada de fumo pelo seu cachimbo – Também sei que a sua amiga e Mestre Alvere lhe imploraram para não me incomodar, e você veio aqui na mesma, devo dizer, estou intrigado Blaster filho de Arather.

    -C-Como!? – Blaster estava atónito, como é que aquela pessoa, que lhe era desconhecida, sabia tudo o que ele tinha dito dentro e fora da estalagem, mas também o nome do seu pai que ainda não havia dito sequer a Gale.

    -Surpreendido? – O Manto Negro voltou a sorrir – Suponho que não saibas, o que eu sou, ou pelo menos, o que o meu título implica, estou correcto?

    Blaster não respondeu.

    -Os Mantos Negros, meu caro, são escolhidos – Fez uma pausa, olhando para ele com o maior dos interesses – Abençoados com poderes fenomenais, capazes de fazer algo que ninguém mais pode fazer, nós fazemos o que queremos, não temos obrigações para com as leis do povo , digamos normal, mas sim para com a ordem do próprio mundo, nós somos enviados, destruímos aqueles que perturbam a ordem e a harmonia. Nós, Blaster, somos os Guardiães.

    Blaster ponderou nas estranhas palavras, o homem que estava à frente dele era uma figura que emanava poder, parecia saber o que tudo e todos pensavam, desde o que quer que Mestre Alvere estivesse a dizer à sua esposa na cozinha, como os maiores segredos da ordem do mundo.

    De repente ele levantou-se, e olhou para Blaster, olhos nos olhos e retirou o capuz, expondo a sua crista de espinhos brancos de listras negras:

    -E tu, Blaster Salvitore, Filho de Arather e Lanette Salvitore, de 19 anos, nascido em Formagna, és um de nós.

    CAPÍTULO VI - Herança
    Spoiler:

    Capítulo 6 – Herança
    De repente, o Mundo parecia completamente diferente.

    Aquele Homem que olhava para ele era um Manto Negro, um eleito, detentor de poderes extraordinários, temido por todos os que ali se encontravam, e faziam a festa longe deles, e acabara de lhe dizer que ele, Blaster Salvitore, um jovem ouriço normal, era um deles.

    -Mas, mas como? – Blaster tentou tomar sentido da situação, tudo aquilo parecia-lhe muito confuso, estranho, mas de certa forma, fazia o maior dos sentidos – Como é que eu posso pertencer à vossa ordem, se eu nunca ouvi falar de vocês!

    -Ah! Mas nós ouvimos falar de ti, e vamos agora falar contigo, meu amigo – O ouriço mais velho puxou o capuz novamente sobre a cabeça coberta de espinhos e embrenhou-se pela multidão, fazendo sinal a Blaster para que este o seguisse.

    -Mas, ouça, explique-me, o que é que você quer dizer com “ouvimos falar de ti”, e como sabem tanto a cerca de mim! – Blaster quase gritou, o que levou que o sue guia pela multidão se virasse e lhe tapasse a boca:

    -Cala-te! Falámos já, mas não aqui.

    Blaster fez como lhe ordenaram, e seguiu o Manto Negro até ao balcão:

    -Mestre Alvere! – Chamou o Manto Negro.

    O Equidna, reconhecendo a voz, irrompeu da cozinha fazendo uma vénia rápida e desajeitada, mostrava uma expressão preocupada, pois não era normal aquele ilustre convidado chamá-lo com tanta urgência, Alvere reparou então no jovem ouriço azul e verde que se encontrava à beira do Guardião e fez-lhe imediatamente um olhar como que gritando “O que é que eu te disse, rapaz?!”.

    -Vejo que não está nos melhores termos com o meu convidado, Mestre Alvere – O Manto Negro, olhava para ele com uma expressão curiosa.

    Alvere corrigiu imediatamente a postura, e fez nova vénia:

    -Perdão Grandioso, Perdão, estava só intrigado, Grandioso.

    O Manto Negro sorriu.

    -Não faz mal então, quero que nos indique somente um quarto onde eu e o meu convidado possamos estar a sós.

    Mestre Alvere mostrou uma expressão de quem não esperava ouvir aquilo, mas depressa a escondeu, dando umas chaves aos ouriços e apontando para umas escadas que levariam ao segundo andar, e aos quartos
    .
    -Muito obrigado, Mestre Alvere, e peço-lhe que não deixe ninguém subir lá acima, enquanto eu e o Senhor Salvitore lá estivermos, compreendido?

    -Sim, Grandioso, Claro. – Alvere fez novas vénias, tinha aspecto de um Equidna muito forte, mas parecia aterrorizado pelo “Grandioso”, apesar de ser mais alto que ele.

    -Pega nas chaves e segue-me, rapaz. – O Manto Negro encaminhou-se rapidamente para cima das escadas, e Blaster seguiu-o, mas quando ia entrar nas escadas alguém o agarrou:
    -O que estás a fazer!?

    Blaster virou-se, e viu Gale que o encarava com a mesma cara preocupada, e com os olhos lacrimejantes.

    -Ele pediu-me para o seguir, e é o que eu vou fazer. – Blaster fez uma pausa – Ele sabe quem eu sou, e quem tu és também, acho eu. – Fez nova pausa olhando para ela que parecia ainda mais atemorizada – Não te preocupes, eu não tarda nada desço.

    Preparou-se para se virar e subir, mas ela abraço-o, impedindo-o de se mexer, ele ficou uns segundos, envolta no seu abraço, mas logo a largou quando de cima se ouviu:

    -Despacha-te rapaz!

    Ao ouvir isto um calafrio pareceu percorrer toda a gente que se encontrava no Salão, incluindo Blaster e Gale.

    -Eu volto já, não te preocupes.

    Blaster subiu novamente, e encontrou-se com um longo corredor feito também da mesma bela madeira trabalhada de que era feito o andar inferior.

    Á frente de um dos 4 quartos aguardava o Manto Negro:

    -Vamos Blaster, não temos tempo, quanto mais depressa eu te explicar mais depressa podemos partir.

    “Partir?” Blaster ficou a ponderar naquela palavra à medida que abria a porta, e entrava junto com o Manto Negro, para um belo quarto, composto por uma grande cama, e por alguns móveis bem trabalhados, o quarto era iluminado por um candeeiro grande que pendia do tecto.

    O Grandioso puxou uma cadeira e sentou-se, e ficou à espera que Blaster fechasse bem a porta, e fizesse o mesmo.

    -Então, diz-me, o que queres saber primeiro? – Perguntou o Manto Negro, de novo a retirar o capuz, e a expor a sua cabeça velha.

    Na mente de Blaster um turbilhão de perguntas complexas apareciam, tal como outras imagens, algumas de fascínio sobre o que poderia fazer com o “Poder” dos Mantos Negros, outros mais terríveis como que dificuldades traria usar esse poder, e uma imagem que em nada estava relacionada com aquilo, o abraço que Gale lhe dera.

    Mas por fim, o ouriço decidiu-se por começar com uma simples, para formar uma base, para depois ir progredindo:

    -Como se chama?

    O Manto Negro riu-se:

    -É essa a tua maior pergunta meu rapaz? Pensei que terias perguntas mais prementes do que um nome de um pobre velhote.

    -Quis saber pelo menos isso à cerca de si, antes de prosseguir.

    O Manto Negro parou de rir, ainda sorria, mas compreendia o que Blaster pretendia:

    -Bom, rapaz, o meu nome não é de importância quase nenhuma fora da Ordem, do lado exterior, todos me chamam Manto Negro, Grandioso e coisas afins, mas sendo que agora és parte integrante da Ordem deves saber, pois como sabes, todos os nós temos esses títulos, mas nomes temos só um, bem, o meu nome é Ganlamber.

    Blaster ponderou um pouco na próxima questão:

    -Como você sabe tanto sobre mim?

    -Na verdade Blaster, eu sempre soube quem tu eras, desde que nasceste, quando alguém nasce com aptidões a ser um de nós, nós sentimos e depressa investigamos e tentamos recolher todas as informações possíveis, desde as mais importantes como tudo o que já fizeste até ao dia de Hoje, dia do qual provavelmente nunca te irás esquecer, até a coisas menos importantes e que podemos considerar ninharias, como a tua cor favorita.

    -O que é “O Poder”?

    Ganlamber chegou-se mais à frente na cadeira e deixou escapar um sorriso, finalmente havia chegado a pergunta pela qual ansiava:

    -Ah! Ora aí está a pergunta em causa, meu amigo, ninguém sabe definir muito bem o que é, mas todos sabemos quando vemos, ou sentimos, alguns chamam-lhe magia, tolices na minha opinião, O Poder não é magia, pelo menos, não é aquilo que normalmente associamos à magia, um estalar de dedos e de repente tudo se resolve, não Blaster, não é isso, o poder é como uma energia constante e imparável que circula dentro das pessoas, todos têm-no dentro delas, contudo ter O Poder e ser capaz de usá-lo é completamente diferente, é isso que nos separa dos outros Blaster.

    Blaster acenou afirmativamente com a cabeça, fascinado aguardando que Ganlamber prosseguisse:

    -O Poder tem repercussões em ti contudo, para activares o poder, tens de dizer algo, uma palavra ou várias que vão determinara a maneira como O Poder é encaminhado, contudo ao usares O Poder, e dependendo de que palavras, ou “feitiços” se preferires usares, vais ficando cansado até não teres mais energia, e morreres.

    Ganlamber fez uma nova pausa antes de continuar:

    E é por isso que tu tens que vir comigo para o Templo da nossa Ordem Blaster, para que possas treinar e finalmente dominar este dom fenomenal que possuis meu caro, para que possas, um dia, seres tu o héroi de nações, seres o Grandioso em todos os sentidos.
    Portanto rogo-te, vens comigo?

    Blaster ponderou seriamente, todas as palavras que ouvia pareciam-lhe fenomenais, e assustadoras ao mesmo tempo, se seguisse por aquele caminho, poderia tornar-se uma pessoa inacreditável, viveria sem leis, apenas tinha de salvar a população quando tal fosse necessário, O Poder que teria seria inigualável, mas:

    -Eu vou falar com a Gale…

    CAPITULO VII – Partida

    Spoiler:

    Blaster descia as escadas com calma, mas a cada degrau que descia, a sua mente rodopiava milhares de vezes, dando-lhe todo o tipo de imagens confusas, intervaladas pelas palavras quer de Ganlamber, quer de Alvere, quer de Gale.
    Finalmente chegou ao último degrau, e olhou em sua volta.

    De repente a sala comum estava vazia, não havia sinal das pessoas alegres que dançavam, ou enfrascavam-se com cerveja, não, tudo estava, vazio, canecas encontravam-se vazias em cima das mesas, e as cadeiras encontravam-se espalhadas em volta das mesas.

    Havia apenas três pessoas na sala, Mestre Alvere que arrumava as canecas e as mesas, estando, no entanto, muito atento a Blaster, olhando-o de soslaio.

    A outra pessoa além de Blaster, era a sua amiga Gale, que o olhava com uma expressão atenta, e preocupada, como que examinando-o, verificando se este lhe parecia normal:

    -Estás bem?

    Blaster afirmou que sim com a cabeça, que lhe latejava com uma dor intensa.

    -O que é que o Grandioso disse?

    Blaster não respondeu de imediato, em vez disso dirigiu-se a Mestre Alvere:

    -Pode nos arranjar um quarto?

    O equidna olhou-o com cara de poucos amigos, mas atirou-lhe uma pesada chave, que Blaster apanhou, assinalando-a a Gale para que o seguisse para um quarto no primeiro andar, longe daquele onde se encontrava Ganlamber, Blaster não queria envolver o Manto Negro na sua discussão.

    O quarto era agradável, tal como o de Ganlamber, mas não tão trabalhado, nem tão bonito, mas seria de esperar que um Grandioso recebe-se um quarto mais sofisticado, que um “patife com espinhos com a mania das grandezas”, como dissera Alvere entre dentes quando o vira na presença do Grandioso pela primeira vez.

    Os ouriços sentaram-se na grande cama e Blaster logo começou a relatar tudo o que Ganlamber lhe disseram, enquanto observa as emoções que Gale deixava transparecer, nomeadamente: choque, espanto e medo.

    -Tu!? – Disse ela incrédula, quando ele terminou – És um Grandioso?

    Blaster acenou positivamente mais uma vez.

    -Mas… mas… - Ela olhava nervosamente para o tecto, e para Blaster, sem saber o que dizer – Ele, ele quer que tu vás com ele?

    Novamente, Blaster anuiu.

    Gale deixou-se cair para trás na cama, deixando-se estendida completamente, enquanto fitava o tecto com uma expressão confusa.

    Blaster nada disse, apenas aguardou a resposta dela, enquanto olhava para a cara dela.

    Um quarto de hora passou sem nenhum dos dois abrir a boca, mas de repente ambos se puseram em pé de um salto, quando Ganlamber entrou a correr dentro do quarto:

    -Blaster, depressa, pega em tudo o que tens e segue-me! – Berrou o Grandioso agarrando no jovem ouriço pelo braço.

    Blaster deteve-se, a cabeça a doer-lhe intensamente:

    -Porquê? O que se passa? Eu ainda não me decidi!

    Ganlamber olhou novamente para ele, a sua cara rugosa e velha mostrava uma expressão de urgência que Blaster nunca julgara ver em alguém tão poderoso quanto Ganlamber:

    -Blaster ouve-me, não nos podemos demorar, mais do que alguns segundos, além disso eu penso que a tua escolha é óbvia, ou vens comigo, ou ficas aqui e morres!

    Blaster e Gale ficaram em choque.

    -O quê?!

    -É verdade, por isso tu vens comigo, és demasiado valioso – disse apontando para Blaster, para depois se virar para Gale e dizer – Tu podes ficar, não acredito que eles te matem se não levantares questões e ficares quieta.

    Gale pareceu acordar sobressaltada, uma luz iluminou-a, dando-lhe finalmente a resposta à pergunta que tanto a atormentava:

    -Eu vou convosco!

    Blaster e Ganlamber ficaram a olhar para ela durante algum tempo, a Gale segura e confiante à frente deles não era a mesma ouriça assustada que tinha entrado naquela estalagem.
    -Muito bem, mas temos de nos despachar, Eles vêm aí!

    CAPÍTULO VIII- Fogo e Gelo

    Spoiler:

    Capítulo 8 – Fogo e Gelo

    Os três ouriços desceram rapidamente para a sala comum, e depressa o Grandioso clamou em voz alta para Alvere:

    -Arranjou o que eu lhe pedi!?

    Alvere depressa entregou uma trouxa a cada um, pareciam ter cobertores e comida no interior.

    -Mais alguma coisa, Grandioso?

    -Apenas não diga a ninguém que eu, ou estes dois – apontei para Blaster e Gale – aqui estivemos, certo?

    Alvere fez uma vénia:

    -Sim, Grandioso, como queira, Grandioso.

    O ouriço ancião anuiu com a cabeça, e virou-se para os jovens, indicando que o seguissem, pela porta das traseiras.

    A noite já havia caído, mas a neve não abrandava, caí sem fim, e quase cobria os ouriços até à cintura.

    Ganlamber praguejou baixo, e avançou pelo terreno gelado, descendo o monte, seguido de perto por Blaster e Gale, que se tentavam proteger o mais que podiam do frio glacial.

    Chegaram ao vale, e a neve mantinha-se à mesma altura, o que não só abrandava o movimento, mas também gelava os ossos dos caminhantes, além de que as quedas constantes impossibilitavam a visão.

    -É impossível continuarmos! – Gritou Blaster, para tentar se fazer ouvir, sobre o rugido do vento que passava rápido, e gelava a parte que a neve não atingia.

    Ganlamber virou-se rapidamente e tapou-lhe a boca com a mão, ficando à escuta durante alguns segundos, antes de lhe tirar a mão, e dizer-lhe de forma ríspida:

    -Queres acordar as montanhas, rapaz!? Está mas é calado, e segue-me! O mesmo serve para ti – Disse apontando para Gale.

    Acto contínuo, virou-se para a frente e continuou a sua marcha penosa, praguejando para consigo.

    Mas não tardou muito até Blaster ter razão, e a neve bloquear-lhes o caminho, completamente.

    Ganlamber praguejou novamente, e virou-se para Blaster, com uma expressão curiosa, parecia ao mesmo tempo furioso e esperançoso. A neve fazia a cena parecer curiosa, um velho ouriço vestido numa capa negra, com ar imponente, mas notavelmente condicionado pela idade, e um ouriço jovem à sua frente que o olhava com uma cara desesperada, com uma outra ouriça agarrada a ele, que tentava mantê-los quentes mutuamente.

    De repente, Ganlamber avançou calmamente e pôs a mão direita sobre o ombro esquerdo de Blaster, e disse-lhe com um sorriso curioso:

    -Está na hora, rapaz. – Fez uma pausa - Não queria ensinar-te nestas circunstâncias, mas estamos numa situação crítica, como já deves ter reparado…

    Blaster não respondeu, sabia o que ele queria dizer.

    -Bom, existem muitas regras, muitas divisões, muitas fórmulas complexas de canalizar o poder, mas eu vou ensinar-te a mais rudimentar, que é a que te será a mais útil nesta circunstância, pois como vês, estou muito fraco e não consigo canalizar poder suficiente para derreter esta neve toda sozinhos, por isso preciso da tua ajuda.

    Blaster anuiu positivamente, Gale olhava de um para o outro.

    -Muito bem, a forma mais simples de controlar o poder, é a que gasta mais energia, mas é também a mais prática, e provêm da transformação da tua energia directamente no objecto que pretenderes, como deves imaginar não seria algo que devas usar em demasia se queres ter energia para te mexeres, ou até mesmo para respirar. Para usares este método, apenas concentra-te o mais que puderes na palavra, e aponta a tua mão para onde quiseres direccionar o poder, ou o objecto que usares para canalizar o teu poder, que facilita imenso a consolidação do feitiço. Compreendes?

    -Sim.

    -Ainda bem, agora quero que apontes para aquela parede com isto – Ganlamber tirou uma pequena vara de madeira que não teria mais de 25 centímetros da trouxa e entregou-lha - , e concentres todo o teu pensamento nesta palavra - Escreveu uma palavra na neve.

    Ganlamber ergueu-se e pôs se ao lado do jovem Blaster que apontava a vara à parede de neve:

    -Estás pronto, rapaz?

    -Sim. – Blaster concentrou todo o seu ser na palavra que Ganlamber lhe havia indicado.

    -Ok, 1… 2… 3!

    -Ignis!

    Blaster gritou do fundo dos seus pulmões, e sentiu o seu corpo ficar todo dormente por um momento, e de repente extremamente atento ao que se passava à sua volta, para depois regressar ao seu estado originai em menos de um segundo, e em quanto a sua energia o abandonava, um fogo de um azul vivo brotava da ponta da sua varinha, e derretia a espessa camada de gelo que lhes impedia o passo.

    -Vol Ignis!

    Ao seu lado, Ganlamber deixava a sua energia sair também como um fogo, mas de cor branca, ao contrário do azul de Blaster, além de ser mais forte e mais vasto.

    -Bom, Blaster – Disse Ganlamber sorrindo-lhe – És sem dúvida um de nós.

    CAPÍTULO IX - Fuga:

    Spoiler:


    Os ouriços seguiram lentamente por entre a neve.

    O tempo parecia não passar, e a única coisa que se notava de diferente desde o inicio daquela caminhada, era o espírito de Blaster, que ardia dentro dele, e as várias dores nos pés ao pisar as rochas pontiagudas encobertas pela neve.

    Finalmente depois do que pareceu uma eternidade, os ouriços encontraram uma caverna, para onde entraram, para tentar aguardar que a neve parasse, ou pelo menos, para descansarem um pouco.

    -Devemos fazer uma fogueira. – Sugeriu Gale, pondo-se de pé procurando alguma lenha no interior da caverna escura e húmida.

    -Não vai ser necessário – Replicou Ganlamber, fazendo-lhe sinal para que se sentasse. – O Blaster trata disso por nós.

    -Ah?

    Blaster estava absorto nos seus pensamentos e despertou por completo, depois olhou para Ganlamber:

    -Eu consigo fazer fogo, embora não o consiga controlar bem, consigo, mas não consigo fazer aparecer lenha do nada!

    Ganlamber sorriu, e tirou do bolso, o que pareceu ser uma esfera que reluziu, embora não houvesse luz na caverna.

    -Do nada não, mas a partir disto sim. – Fez uma pausa integrando um pergaminho a Blaster.

    -Você tem tudo dentro dessa trouxa, não tem?

    Ganlamber riu-se, um riso sincero que Blaster não lhe reconhecia:

    -Ainda bem que já estás mais disposto a informalidades, a esta distância deles, podemos descansar.

    Blaster ia finalmente perguntar quem eram “eles”, mas Ganlamber depressa levantou a mão, como que indicando-lhe que mais tarde, lhe responderia:

    -Mais tarde, Blaster, primeiro focámo-nos nisto.

    Blaster estava um bastante impaciente, mas decidiu que uns segundos não mudaria tanto, então concordou.

    -Muito bem, esta é outra forma de canalizar o Poder, desta vez, em vez de transformar a tua energia em Elementos, a tua energia é transforma um objecto, em vez de transformar-se a ela própria, isto como deves imaginar, é menos prático em situações de perigo iminente, mas pode ajudar-te a conservar energia, além de que é a única maneira de fazeres alterações permanentes, pois como deves imaginar, tu não consegues manter um objecto sólido só com a tua energia durante muito mais que uns segundos.

    »Por isso transformamos outras coisas, este particular ramo d’ “O Poder” chamamos de “Sherbhaka” ou Transfiguração, no idioma comum. As coisas que transformarmos, pode ser qualquer coisa, mas o produto final terá sempre a mesma massa do original, por isso é que estas esferinhas são úteis, pois têm uma massa infinita.

    -Massa Infinita? – Questionou Gale.

    -Sim – Confirmou Ganlamber – São uma invenção muito curiosa e muito complexa, e muito sinceramente não faço a mínima ideia de como isto funciona, só sei que é muito útil, e que pertence ao ramo d’ “O Poder” chamado de Alquimia, ou “Parthekun”.

    Ganlamber agarrou no braço de Blaster e fê-lo tocar com a mão na esfera, era uma sensação muito estranha, parecia estar a tocar em ar, e ao mesmo tempo em algo muito áspero, e a temperatura também flutuava muito, ora gelada como a Neve no exterior da caverna, ora quente.

    -Muito bem rapaz, concentra-te na esfera, e diz a palavra correspondente a “ramo” no pergaminho.

    Blaster abriu o pergaminho, ainda a tocar na esfera, e procurou a palavra que pretendia, e quando a encontrou concentrou-se nela também, depois, concentrando-se tanto na esfera como na palavra disse:

    -Kvistr!

    De repente a esfera brilhou fortemente e começou a expandir, até se formar um amontoado de ramos.

    -Excelente, rapaz! – Congratulou-o Ganlamber – Agora, creio que sabes que fazer a seguir.

    -Ignis!

    As chamas azuis brotaram da mão de Blaster e queimaram os ramos completamente.

    Ganlamber não pareceu surpreendido.

    -Tens de fazer o feitiço mais fraco, vê qual é a palavra, enquanto eu reúno novamente a esfera, Thrysta!

    As cinzas voaram umas apara as outras, comprimindo-se, para novamente formar a esfera.

    Blaster fez de novo:

    -Kvistr!

    Novamente os ramos surgiram da massa infinita da esfera.

    -Reducto Ignis!

    Chamas azuis mais pequenas, e menos intensas saíram da mão de Blaster, e desta vez tiveram o efeito pretendido, os ramos começaram a arder com um fogo laranja, e as chamas azuis dissiparam-se, assim que Blaster cortou o fluxo de energia.

    Quando se deixou cair, sentiu-se cansado.

    -É normal o cansaço, ainda és muito novo, e é a primeira vez que usas “O Poder”, em breve isto que acabaste de fazer, será tão natural quanto respirar.

    Gale sorriu-lhe, e Blaster não conseguiu evitar senão sorrir também, e ficar um pouco corado, mas Gale mudou de assunto, pois aparentemente, ela corava também:

    -Afinal, quem são “eles”, Grandioso? – Disse ela para Ganlamber.

    -Primeiro, minha querida, não gosto que me chamem isso quando se trata de amigos, tratem-me por Ganlamber – Disse ele, olhando para os dois, Gale muito direita, ajoelhada junto do fogo que crepitava, e Blaster deitado, derrotado pelo cansaço, mas ainda assim, apoiado nos cotovelos, olhava para o seu “Mestre”.

    »Quem nos persegue meus caros, são os nossos próprios irmãos.


    CAPITULO X - A Cabeça de Ganlamber

    Spoiler:

    -Como!?

    Blaster estava incrédulo, tanto discurso sobre a grandiosidade da Ordem, sobre como este deveria ser levado aos seus salões imediatamente, para ser devidamente integrado nela, para aprender com os melhores, para ser um Grandioso ele próprio, e agora, subitamente andava a ser perseguido pelo meio da neve por aqueles que imaginava serem seus futuros professores e amigos.

    -Mas como isso é possível!? – Questionou Gale – Estamos simultaneamente a nos juntar-mos a eles e a fugir deles?

    Ganlamber tirou o cachimbo da trouxa e começou a fumar, calma e serenamente, aparentemente alheio as reacções de Blaster e Gale ao que este acabara de revelar.

    -Não nos vai dar respostas!? – Gritou Blaster pondo-se de pé imediatamente, chocado com o que via e ouvia.

    -É complicado – Sussurrou por fim Ganlamber.

    -Pode crer que é complicado! E se é para si, imagine para nós!

    Ganlamber voltou a soltar uma baforada de fumo, e cruzou as mãos.

    -Explique! – Berrou Blaster, nem se lembrou de que quem estava ali à sua frente era alguém que sabia tudo sobre o poder dele, e que podia fazê-lo em cinzas num segundo, mas isso não lhe veio à cabeça quando falou, ele queria uma explicação, não fumo.

    Ganlamber ergueu os olhos para a pareja de ouriços irritados que se encontrava em pé, à sua frente.

    -Sentem-se por favor, e eu explico tudo…

    Blaster irritado manteve-se firme no local, mas Gale sentou-se e puxou-lhe pela manga do casaco, indicando-lhe que se sentasse, ele acabou por ceder e sentou-se igualmente.

    Ganlamber deu mais uma baforada, antes de apagar novamente o cachimbo e guardá-lo, depois fitando Blaster começou a contar a sua história:

    -Como tu Blaster, eu não fazia a mínima ideia do meu poder, antes de alguém dentro da Ordem me contactar, deveria ter mais ao menos a tua idade, e fui imediatamente admitido na Ordem, trabalhei imenso, e cheguei a Mestre, a posição mais elevada que se pode atingir dentro da Ordem, para além de Grão-Mestre.

    Fez nova pausa, antes de mergulhar novamente em recordações.

    -Durante muito tempo trabalhei para a Ordem – Continuou por fim – Viajei a todo o lado, usei o meu poder diversas vezes, derrotei criaturas incríveis com a ajuda dos meus companheiros, derrotei tiranos, e ajudei a estabelecer regimes justos e democráticos, enfim, fiz de tudo, de tudo mesmo, até de coisas que eu nunca soube que fiz…

    Nova pausa surgiu, parecia custar-lhe imenso mergulhar nessas memórias.

    -Pode passar essa parte, não precisa de se lembrar delas, diga-nos só o que quis dizer com a Ordem persegue-nos, por favor – Disse Gale de forma calma e doce que Blaster tanto lhe admirava, mas por uma vez, não concordava com ela.

    -Não, eu quero saber tudo, só para ter a certeza de que não nos vai surgir outra surpresa como esta.

    Gale olhou para ele com um ar com um misto de zanga e de dissimulação, ele sentiu-se mal a ver aquele olhar, mas não podia fazer nada, não podia confiar nele, agora que aquela informação havia sido revelada, não depois do que havia sido dito antes.

    -O que eu quis dizer – Interrompeu subitamente Ganlamber, quando os dois jovens ouriços pareciam começar a abrir a boca para falar – Foi, louco pelo Poder, os meus olhos começaram a deixar de funcionar, ou seja, eu comecei a pensar que estava sempre a fazer o correcto, mas, não estava, a Ordem usava-me como um peão num campo de Xadrez enorme, num esquema para possuir tudo e controlar todos, não devias estar surpreendido com isto, visto que não se chama Grandioso a um guarda normal, como deves saber.

    Blaster acenou afirmativamente, assim como Gale.

    -Agora a Ordem controla quase tudo, e vai começar, isto é, se ainda não começou, a começar a cobrar impostos pesadíssimos, e a morte é o destino mais feliz para quem não os pagar, eles estão se a transformar naquilo que hipocritamente juram destruir.

    Ganlamber parou de novo, desta vez não por sofrer com as recordações, mas para acalmar a raiva que começava a crescer dentro dele.

    -Por isso saí da Ordem, e fiz questão de esconder da Ordem, o futuro membro com mais potencial, para que o pudesse treinar de forma a mais tarde, auxiliar-me a mim e aos restantes rebeldes a destronar a Ordem.

    -Quem? – Perguntou Blaster.

    -Tu, Blaster.



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      Data/hora atual: 21/9/2018, 00:46